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29/11/2019

POLICIAL FEDERAL NA IDENTIFICAÇÃO DE VÍTIMAS EM BRUMADINHO

“Ter contato com pessoas que de maneira abrupta e coletiva simplesmente desapareceram do convívio de seus amigos e familiares é algo transformador. Você percebe o quanto circunstâncias que você realmente não controla podem incidir sobre sua existência. Na verdade, tudo é tênue”.

 

Esse foi o sentimento que a tragédia de Brumadinho/MG deixou para o Papiloscopista Policial Federal Gabriel de Oliveira Urtiaga, que foi um dos homenageados na noite da última quinta-feira, 21.11, durante coquetel de comemoração ao Dia do Policial Federal, promovido pela Fenapef e o Sindicato dos Policiais Federais do Distrito Federal – SINDIPOL/DF, em Brasília.

 

Homenagem mais que merecida não apenas pelo mérito advindo do trabalho em Brumadinho, mas por ser mais um exemplo de policial federal realizado com sua atividade profissional, e pelo que não poupa esforços e disposição para sua capacitação e especialização permanentes.

 

O SINPEF/RS parabeniza esse profissional tão engajado e entusiasta, reafirmando que a alocação crescente de conhecimento é uma das prerrogativas para a adoção de melhores práticas e para que seja percorrido o árduo caminho da conquista da valorização profissional.

 

Nesta entrevista, o Papiloscopista Policial Federal Gabriel Urtiaga, lotado no GID/SR/PF/RS, fala sobre sua trajetória na Polícia Federal, sobre sua participação no atendimento das vítimas do desastre da Vale em Brumadinho/MG e sobre as dificuldades/entraves para a identificação papiloscópica.

 

SINPEF/RS – Qual sua formação e sua trajetória na Polícia Federal?

Gabriel Urtiaga – Sou graduado em Ciências Biológicas, pela Universidade Católica de Pelotas. Entrei Papiloscopista Policial Federal na PF em janeiro de 2013, sendo lotado inicialmente em Uruguaiana/RS. É uma das cidades de fronteira que propicia uma das melhores noções da amplitude de nossa contribuição à sociedade. Lá é “clínica geral”.

Uma alta demanda de serviços de polícia administrativa e de fronteira, somado a um grupo de policiais que não olvida os trabalhos investigativos. Apesar disso, e mesmo distante dos grandes centros, realizei minha primeira pós-graduação, em Criminologia, Política Criminal e Segurança Pública, pela LFG-Anhanguera, bem importante para ampliar a noção de posicionamento da atuação policial frente o aparato de controle social atual. Em 2016, através de concurso de remoção, conquistei vaga em Porto Alegre/RS e fui integrado ao Grupo de Identificação da Superintendência. O dia-a-dia realizando perícias em locais de crime, buscando a revelação de impressões digitais e o processamento dos casos até a identificação dos autores foi extremamente motivante.

 

SINPEF/RS – O que te levou a buscar novos conhecimentos e a fazer uma especialização?

Gabriel Urtiaga – A percepção do sucesso das técnicas empregadas e das lacunas ainda não exploradas na Papiloscopia contribuíram para a decisão de voltar a estudar. Ingressei em 2017 no Mestrado em Biotecnologia da Universidade Federal de Pelotas (Capes 7) buscando explorar novas tecnologias de análises de vestígios biológicos em locais de crime, como saliva e impressões digitais. Mais tarde, em 2018, a Academia Nacional de Polícia ofertou a Especialização em Identificação Humana, a qual também me inscrevi. Em início de 2019, quando estava em fases de finalização dos produtos do mestrado e da pós, ocorreu o desastre na barragem da Vale em Brumadinho/MG. Hoje, com as pós-graduações concluídas, e percebendo o sucesso da equipe de identificação humana, sobretudo a de Papiloscopia, no atendimento às vítimas da Vale, percebo que 2019 vai ficar marcado em minha memória.

 

SINPEF/RS – O que te motivou a fazer o concurso para a Polícia Federal?

Gabriel Urtiaga – Realizei concurso pela natureza do cargo Papiloscopista Policial Federal. Acompanhava concursos na área pericial da Polícia Federal e achava muito interessante a possibilidade de trabalhar atendendo locais de crime. Na época, eu dava aulas em Pelotas/RS e estagiava em laboratório de Biotecnologia da UFPel, me preparando para trilhar a carreira acadêmica. Ao perceber que a PF publicaria os editais em 2012, reorganizei minha rotina para estudar forte para o concurso. O cargo de Papiloscopista Policial Federal, apesar de exigir curso superior não específico, exige do candidato conhecimentos em biologia, química, estatística, identificação humana, etc., e isso foi decisivo para minha aprovação na época. Eram conhecimentos de minha área de formação.

 

SINPEF/RS – Você se sente realizado com o que faz?

Gabriel Urtiaga – Hoje, lotado no Grupo de Identificação da SR/RS, me sinto extremamente realizado. Apesar do grupo enxuto para atender o Estado inteiro em perícias em identificação (somos 10 papiloscopistas lotados no grupo hoje), nos organizamos para atender a demanda, que varia desde o atendimento a local de crime, realização de perícias em laboratório, processamento de casos criminas em sistema AFIS (aquele sistema automatizado de cruzamento de impressões digitais – e não se engane, não é como o CSI, o sistema não aponta o autor, muitas vezes o autor está bem abaixo na lista de candidatos trazida pelo sistema), perícias de comparação de face entre imagens de monitoramento e suspeitos, comparação de face em caso de estelionatários, entre outras de diversas natureza. Definitivamente, é possível contribuir ao grupo de formas suficientes a afastar a monotonia. É muito motivante. Hoje o Grupo de Identificação do RS alcança taxas de sucesso altíssimas, chegando a identificar indivíduos em cenas de crime em quase 40% das perícias realizadas. Quando consideramos a identificação de indivíduos nos locais em que de fato foram localizadas impressões digitais, esse número ultrapassa os 60%. É muito motivante, mesmo! E essa motivação só contribui para adoção de melhores práticas, que geram melhores resultados, em um feedback positivo.

 

SINPEF/RS – O que levou você a ser convocado para esse trabalho?

Gabriel Urtiaga – A participação no atendimento das vítimas do desastre da Vale em Brumadinho/MG surgiu a partir de um contato do chefe do Grupo de Identificação da Superintendência de MG junto aos colegas do curso de especialização em Identificação Humana. O atendimento a vítimas de desastres e seus protocolos internacionais foi um dos tópicos muito discutidos durante o curso e o chefe do Grupo de Minas, que inclusive era aluno da pós-graduação, viu a oportunidade de agregar a sua equipe colegas que haviam sido submetidos a essa recente formação pela ANP. O rompimento da barragem ocorreu no dia 25/01/2019 e o acionamento de equipes externas ocorreu dia 30/01/2019. Em 31/01/2019 eu desembarcava em Belo Horizonte/MG. No mesmo dia chegaram equipes de Brasília/DF também. Permaneci até dia 10/02/2019.

 

SINPEF/RS – Como foi o trabalho de identificação papiloscópica em Brumadinho/MG?

Gabriel Urtiaga – Brumadinho/MG é uma cidade muito próxima a BH, pertencente à região metropolitana. À medida que os corpos eram localizados, era armazenados em caminhões frigoríficos até o deslocamento, em grupos de 5 a 10, para o IML de Belo Horizonte/MG. Aos corpos ou segmentos corpóreos (não era tão comum a chegada de corpos completos), em Brumadinho ainda, eram atribuídos números de identificação. Ao chegar no IML, os corpos ou segmentos eram retirados do caminhão de transporte e imediatamente era dada a entrada através do número atribuído anteriormente. Após a anotação das condições aparentes em exame visual rápido e da utilização de fotografia, o corpo era imediatamente disponibilizado para o trabalho dos Papiloscopistas. Após, o corpo seguia para limpeza geral e submissão ao exame médico-legal e odonto-legal, por parte dos médicos e dentistas do IML estadual. Eles realizavam o exame de corpo delito e causa mortis, a antropologia forense, a identificação odontológica e a coleta de material biológico a ser submetido posteriormente ao exame de DNA. Utilizamos durante os trabalhos uma tecnologia desenvolvida no Instituto Nacional de Identificação, por Papiloscopistas, chamado Alethia, a qual consiste em um mini-AFIS. Com ele, foi possível a construção de um banco de dados específico dos desaparecidos. Tratávamos com técnicas necropapiloscópicas as vítimas, buscando a recuperação da informação contida nas cristas papilares, e realizávamos o escaneamento. O sistema apontava o candidato cuja impressão digital era mais similar e nós realizávamos um pré-exame visual in loco, na hora, indicando se havia coincidências suficientes à identificação. Comunicávamos a base localizada na superintendência, a qual realizava o exame final e emissão de laudo de identificação. Os corpos chegavam em sua maioria em estado de maceração e alguns com indícios de mumificação. Em geral, os tratamentos realizados por nós envolviam técnicas como excisão de luva epidérmica por bisturi, reidratação por fervura, injeção subcutânea ou moldagem por silicone.

 

SINPEF/RS – Como foi a divisão das tarefas e a sua atuação específica na identificação das vítimas?

Gabriel Urtiaga – Nossa força-tarefa de papiloscopistas foi dividida em áreas de atuação e, por vezes, integrantes de uma área acabavam prestando apoio a outras, na medida de necessidade. Basicamente, montamos equipes de atendimento ao IML, a qual foi responsável pelos trabalhos de tratamento biológico e coleta com Alethia (trabalho post mortem). Outra equipe permanecia na base (GID da Superintendência em MG), realizando a busca por impressões digitais dos desaparecidos nos diferentes bancos de dados nacionais (trabalho de busca de informação ante mortem), bem como exames definitivos para emissão de laudo de identificação cadavérica. Uma terceira equipe de papiloscopistas acompanhava os trabalhos de busca no local da tragédia, trazendo informações às demais equipes, orientando o trabalho. Minha contribuição individual se deu na maior parte do tempo no atendimento post mortem, no tratamento biológico das cristas papilares e busca pela identificação através do Alethia. Nos turnos de folga do IML, por vezes realizávamos apoio à equipe da base, buscando a identificação daqueles corpos que não foram imediatamente resolvidos via Alethia.

 

SINPEF/RS – Como você vê a tragédia, tendo acompanhado de tão perto suas consequências?

Gabriel Urtiaga – Logo que fui acionado, fiquei com aquele frio na barriga. Não sabia exatamente como eu iria me sentir estando dentro do IML, diretamente com as vítimas, em meio à comoção. Ao chegar lá, o primeiro dia, sobretudo nas primeiras horas, foi muito impactante, em especial na chegada dos primeiros corpos. Mas à medida que você vai trabalhando e percebendo o entorno, as coisas vão ficando mais tranquilas, até que você “desliga o disjuntor”. Acredito que essa capacidade seja fundamental para que se obtenha sucesso na missão. Lá, você se depara com o outro lado da tragédia. Todos sabemos o quão revoltante é a conduta da empresa que submete seus funcionários e moradores vizinhos ao risco do que aconteceu. Entretanto, durante o trabalho, não é esse o sentimento que te consome. O que mais motiva o trabalho é perceber o quanto os laços de uma cidade são estreitos. Perceber que, por mais que existam milhões de indivíduos habitando uma região, esses indivíduos sempre conhecem alguém que conhece uma vítima. Isso torna a tragédia mais próxima e você acaba tendo acesso a dados diferentes. O ambiente no entorno do IML era de expectativa e muitas famílias rezavam pela confirmação da identidade para que enfim pudessem por fim à angústia; para que pudessem velar seus entes queridos. Além disso, muitos funcionários eram os únicos provedores de suas famílias e, enquanto não fosse confirmado seu óbito, famílias permaneciam com dificuldade de acesso a contas bancárias e benefícios. O que te consome durante o trabalho é o sentimento de necessidade de identificação. Você busca, você quer, você precisa descobrir quem é aquela pessoa! Todos esperavam isso do exame do papiloscopista. Em geral, quando realizávamos nossos exames, médicos, dentistas, auxiliares, peritos, funcionários do IML aglutinavam-se em nosso entorno, com essa mesma expectativa, vez que possuíamos o Alethia, o qual permitia uma identificação rápida.

 

SINPEF/RS – Quais as dificuldades/entraves para a identificação papiloscópica das vítimas?

Gabriel Urtiaga – O avanço dos processos de decomposição cadavérica é uma das condições mais delicadas em tragédias como a de Brumadinho/MG, em que os corpos demoram a ser encontrados pelas equipes de resgate. Chegavam a nós vítimas em diversas condições e, para cada condição, era necessário um procedimento específico. Em sua maioria, conseguíamos, após tratamento, a coleta de informações da camada intermediária da pele, a derme, tendo em vista que a epiderme já havia se perdido. À medida que o tempo ia passando, notávamos uma dificuldade cada vez maior da recuperação do tecido, vez que os processos de maceração (que promove a desagregação de tecidos moles) estavam bem avançados. Cabe ressaltar que, apesar disso, as condições proporcionadas pela lama oriunda da barragem promoveram um ambiente de retardo da velocidade tipicamente observada nos processos de decomposição, permitindo a identificação por papiloscopia durante um longo período após a tragédia. Impressionantemente, após quase 9 meses da tragédia, em outubro, foi identificada uma vítima por impressões digitais, através do apoio de Papiloscopistas Policiais Federais lotados no Grupo de Identificação do MG. Outra dificuldade bem evidente se deu a nível logístico. A polícia científica de Minas Gerais, há alguns anos, extinguiu o cargo de papiloscopista. Tal fato foi determinante para o acionamento dos papiloscopistas policiais federais. O mais crítico dessa realidade consiste no fato de que lá não há uma política estatal de valorização de profissionais com competência em identificação humana por impressões digitais, uma ciência tão bem estabelecida a nível mundial, tampouco investimentos em tecnologias da área, capazes de implementar a segurança jurídica em identificação humana. O Estado não possui sistema informatizado de armazenamento de impressões digitais e, apesar da notícia acerca de um indivíduo desaparecido, muitas vezes o prontuário civil com as impressões digitais do indivíduo não era localizado, fazendo com que nosso trabalho de busca de impressões digitais em outras fontes fosse fundamental. Apesar das dificuldades, até o terceiro mês após a tragédia, em que ainda existia maior volume de corpos sendo encontrados pelas equipes de busca, das 270 vítimas, 192 indivíduos haviam sido identificados pela Papiloscopia (cerca de 80% do total de identificados), 21 por DNA e 20 por odontologia (cerca de 9% cada). Ainda não haviam sido identificados 37 pessoas à época. A partir daí, a maioria das vítimas passou a ser identificada principalmente por arcada dentária e antropologia forense, visto que, dadas as condições da lama, definiu-se que identificações por DNA necessariamente deveriam ser confirmadas por uma segunda técnica de identificação. Hoje, já foram identificadas 255 vítimas; 15 seguem desaparecidas

 

SINPEF/RS – O que muda depois de participar e colaborar com o trabalho de identificação?

Gabriel Urtiaga – Sob o ponto de vista pessoal, muda tudo. A experiências que vivenciamos nos moldam. Em geral, assumimos a existência de riscos no cotidiano. É evidente que a percepção da presença do risco de morte é natural a todos, seja andando na rua, seja durante o desempenho das atividades profissionais. Entretanto, ter contato com pessoas que de maneira abrupta e coletiva simplesmente desapareceram do convívio de seus amigos e familiares é algo transformador. Você percebe o quanto circunstâncias que você realmente não controla podem incidir sobre sua existência. Na verdade, tudo é tênue. Sob o ponto de vista profissional, foi uma experiência que ampliou sobremaneira minha percepção acerca da dimensão da importância do trabalho de identificação humana. Após o trabalho realizado em Minas Gerais, me senti mais completo como profissional.

 

SINPEF/RS – Qual a importância do trabalho do papiloscopista?

Gabriel Urtiaga – Sobretudo a experiência em um estado onde não existe o cargo de Papiloscopista, restou mais evidente a importância dessa ciência à identificação humana e à sociedade. Os dados percebidos em Brumadinho/MG, bem como os dados de resolução de crimes auxiliadas pelos papiloscopistas são destaque não só aqui no Brasil. Recentemente, em agosto de 2019, estive presente na Conferência Anual da Associação Internacional de Identificação (IAI, do inglês International Association for Identification; https://www.theiai.org/) e nossos dados foram comemorados por colegas de diversas agências de outros países. Acredito que todo esforço dos Papiloscopistas Policiais Federais para prestação de um trabalho de qualidade à sociedade é recompensado pelos resultados obtidos.


Fonte: Assessoria de Comunicação SINPEF/RS (http://www.sinpefrs.org.br/site/entrevista-policial-federal-gabriel-de-oliveira-urtiaga-fala-sobre-seu-trabalho-de-identificacao-de-vitimas-da-tragedia-em-brumad


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